Descontínuo de ninguém
Espreguicei saudade esta manhã,
Bocejei uma incerteza repentina,
Desjejuei uma proporção de esperança cordial,
Caminhei pelo meio-fio atônito,
Escorreguei num buraco de injustiça,
Levantei no espasmo da composição,
Continuei na sinfonia decadente, entediado,
Rabisquei asas depenadas no vento,
Descontinuei o compasso apaixonado,
Cansei de cultivar ansiedade,
Descansei das irônicas sofreguidões,
Converti-me ao prosélito poético,
Anunciei as boas líricas,
Fui tentado na trova,
Cai na perdição de um sarcástico etílico,
Vaguei pelo vale da irresolução,
Perdi minha salvação estilística,
Roguei ao supremo despropósito,
Voltei a cair em tentação,
Escorreguei no meio-fio da composição,
Sobejei numa proporção apaixonada,
Beijei as irônicas saudades,
Gerei farturas estéreis,
Cansei de caminhar e de bocejar,
Descansei vagando em verso,
Exauri-me de amar e de Amor imenso,
Usufrui da salvação e do fervor,
Anoiteci de primavera puída,
Tossi algumas lágrimas engasgadas,
Balbuciei um porfio de inspiração,
Desbotei o libertino da chama,
Morri de frio.
Daniele Oliveira

Nenhum comentário:
Postar um comentário